Conversa com Sandra Matos e Júlia Matos, Murtosa
Identificação
Conteúdo
Conversa com três moradoras do bairro de Casas do Património dos Pobres, em Murtosa. Seguem-se algumas informações partilhadas durante esta conversa neste bairro, mantida com as investigadoras Ivonne Herrera Pineda e Catarina Ruivo. Gostaríamos de agradecer profundamente a amabilidade e generosidade de estas moradoras, especialmente à Sandra Matos e Julia Matos pela sua disponibilidade para conversar connosco.
Segundo Sandra Matos e Júlia Matos, as casas foram construídas em duas fases: primeiro as quatro geminadas; depois outras quatro em banda, "construídas pelos americanos". Estas últimas foram construídas a través de peditórios feitos por emigrantes nos Estados Unidos, destinados aos mais pobres. “Fizeram um peditório, e depois entregaram ao padre, e o padre construiu estas habitações”.
Agora é considerado bairro do Património, e não só bairro dos pobres.
A economia doméstica deste bairro está fortemente ligada à pesca. É um bairro de pescadores com várias gerações a viver na mesma rua. Hoje estas casas são consideradas património local, dado que dinamizaram identidades familiares e de trabalho do mar.
As casas apresentam tipologia em banda. Tinham cozinha com lareira, sala “do senhor” e dois a três quartos muito pequenos. Elas lembram-se das dificuldades de viver numa casa tão pequena com tantos membros da família. Mas também se lembram de relações de vizinhança bastante próximas no quotidiano.
Ao longo das décadas, as casas experimentaram algumas transformações para responder a necessidades das famílias, como anexos posteriores e laterais, marquises e conversões de salas exteriores em quartos e casas de banho, resultando em moradias maiores e interligadas.
Espaços exteriores como varandas quintais e eiras eram espaços de convívio. Ainda são usados no quotidiano para secagem de roupa ou para conversas diárias. A transformação dos espaços exteriores alterou práticas e perceções de segurança. Por exemplo, há poucos anos atras [entrevista realizada em 2024], a pavimentação da estrada principal (antes caminho de terra sem saída) melhorou acessos, mas introduziu tráfego e reduziu o “espaço livre” para a infância.
Os espaços interiores também cumpriam uma função importante para a sociabilidade. Por exemplo, lembram velórios em casa até à década de 1980, procissões da Páscoa e da Senhora dos Navegantes (descontinuada há décadas). Também se lembram da passagem de ano com lareira e música na rua, algo que lembram com nostalgia, mas que terminou após intervenção municipal.
A escola primária antiga da rua foi encerrada há cerca de 12 anos [entrevista realizada em 2024], os alunos foram transferidos para Pardelhas. A perda do edifício acabou com algumas das tradições escolares com ligação ao bairro como celebrações, rifas, etc.
Este testemunho oral foi recolhido e sistematizado por Ivonne Herrera Pineda, e baseia-se numa conversa mantida em dezembro de 2024 com as investigadoras Ivonne Herrera Pineda e Catarina Ruivo. Agradecemos a generosidade das moradoras do bairro com quem conversamos, especialmente à Sandra Matos e Júlia Matos pela disponibilidade para conversar connosco.
Para citar este trabalho:
Ivonne Herrera-Pineda para Arquitectura Aqui (2026) Conversa com Sandra Matos e Júlia Matos, Murtosa. Acedido em 11/01/2026, em https://arquitecturaaqui.eu/pt/documentacao/notas-de-observacao-ou-conversacao/67816/conversa-com-sandra-matos-e-julia-matos-murtosa




