Conversa com Hernâni Damásio, Academia de Música de Salvaterra de Magos
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Registo de conversa com Hernâni Damásio, fundador da Academia de Música de Salvaterra de Magos. Atualmente reformado, foi carpinteiro, com longa experiência (foi, por exemplo, técnico de moldes) e períodos de trabalho na construção na Venezuela e na Líbia. Continua ativamente ligado à Academia de Música e tem "quase 65 anos de músico". Nasceu numa família de pescadores, tendo crescido numa casa de madeira no Bairro do Forno da Cal; quando casou, foi para "uma casa de renda".
Agradecemos muito a simpatia e disponibilidade com que nos recebeu e as generosas partilhas sobre as suas experiências em Salvaterra de Magos.
A academia de Música instalou-se há 18 anos no edifício do quartel dos bombeiros. Nessa altura foi fundada, por iniciativa de Hernâni Damásio, e a banda deixou de estar associada aos Bombeiros. A academia provém da Banda dos Bombeiros, que depois se tornou na Associação Cultural e Musical de Salvaterra de Magos, onde se incorpora a academia.
Antes de a banda vir para os bombeiros, já existia como banda de música desde 1880. Nessa altura, já estava apta a dar concertos, como comprova o convite da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos para tocar num congresso nos concheiros da Arruda em Muge ao qual vieram arqueólogos e antropólogos internacionais.
Quando a academia se instalou, os bombeiros ainda funcionavam no quartel. A academia teve de rentabilizar o espaço para cumprir com o protocolo que estabeleceu com a corporação. Os bombeiros saíram pouco depois do edifício, pois foi construído um novo edifício. O anexo que fica junta ao quartel, onde havia camaratas, balneários e cozinha, foi vendido, tendo o recheio e material, em mau estado, sido "despejado" no piso inferior do quartel, sendo esse o cenário caótico com que a academia deparou ao instalar-se. Também havia problemas na estrutura, com infiltrações de água. O edifício do quartel foi cedido à academia, mediante protocolo firmado, que ficou com responsável pela manutenção e obras necessárias. Foi assinado um acordo de renda renovável a cada 10 anos, após realização de obras de requalificação e ampliação com financiamento da Câmara Municipal em 2022. É necessário mudar o telhado, sobretudo depois das intempéries de janeiro de 2026.
No piso de baixo havia uma cave que era o bar dos bombeiros. Foram instalados sanitários e uma despensa no amplo salão do piso térreo, que ocupa o espaço da antiga garagem.
O edifício pertence, ainda, aos Bombeiros Voluntários de Salvaterra de Magos. A sua construção partiu da iniciativa de Gaspar da Costa Ramalho, que também mandou construir o hospital da vila. O quartel foi cedido aos bombeiros enquanto a corporação exista; em caso de extinção, o património passará para a Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos, conforme vontade testamentária do benemérito.
A banda foi instalada no novo quartel dos bombeiros quando este ficou concluído, em 1938, ligando-se à corporação e tornando-se na Banda dos Bombeiros. Hernâni Damásio refere que "os bombeiros nunca gostaram da banda da música", pois os músicos vieram com o estatuto de bombeiros-músicos. Nessa altura, a corporação era composta por cerca de 10 a 12 bombeiros e não havia ambulância.
Em 1947 criou-se uma comissão pró-banda porque "as coisas não funcionavam".
A associação cultural e musical foi criada para haver cisão com os bombeiros, sobretudo pela questão do dinheiro auferido pela frequência das aulas de música, que por vezes chegou a ser usado indevidamente pelos bombeiros. Importava que todo o património da banda pertencesse, efetivamente, à banda, dado que nunca houve investimento por parte dos bombeiros.
Foram, desde então, comprados 60 instrumentos (incluindo instrumentos de estudo), e a banda tem aproximadamente 50 músicos. Há oito professores a leccionar na academia, e aproximadamente 120 alunos. As aulas são abertas tanto aos mais pequenos como a adultos. Também há aulas para o coro da Universidade Sénior. Os alunos têm liberdade para escolherem o instrumento que querem experimentar, há vontade de estimular o gosto pela música; no tempo em que Hernâni se juntou à banda, teve de se ajustar ao naipe de instrumentos que fazia falta. "As bandas de música são os conservatórios do povo, é aqui que toda a gente começa".
O atual mercado municipal funciona em antigos celeiros da Federação Nacional dos Produtores de Trigo. Desde que se recorda que os edifícios existem, possivelmente terão sido construídos antes de 1946. Na zona do Palácio das Donzelas também havia celeiros de trigo. Onde hoje fica a escola profissional havia um armazém onde se embalava todo o trigo; lembra-se de ver muita gente a carregar sacas de 100 quilos, que iam descarregar no Cais da Vala. Julga que os celeiros deixaram de funcionar na altura em que deixaram de funcionar os barcos, nos anos 50, devido às pontes. Tudo era carregado em Salvaterra.
As obras de requalificação dos antigos celeiros como mercado foram criticadas por muita gente, que julgava que teria sido mais adequado remodelar o edifício do antigo mercado, inaugurado em 1956 e junto ao quartel, que foi demolido devido ao mau estado. Hernâni Damásio sugeriu que nos antigos celeiros se poderia ter feito um auditório, que ainda hoje não existe em Salvaterra.
Antes de existir o edifício, o mercado fazia-se ao ar livre no terreiro em frente à Câmara Municipal, onde existiam bancas, entretanto removidas.
Resources
A recolha e sistematização deste testemunho oral foram elaboradas por Ana Mehnert Pascoal, com base numa conversa mantida em abril de 2026.
To quote this work:
Ana Mehnert Pascoal for Arquitectura Aqui (2026) Conversa com Hernâni Damásio, Academia de Música de Salvaterra de Magos. Accessed on 18/04/2026, in https://arquitecturaaqui.eu/en/documentation/notes-from-observation-or-conversation/68080/conversa-com-hernani-damasio-academia-de-musica-de-salvaterra-de-magos








